Recolha de entrevistas dadas por Lauro António.

12/16/2006

NOTICIAS DE ALBUFEIRA
CINE’ECO NO ALGARVE PELAS MÃOS
DO INATEL E DE LAURO ANTÓNIO


O Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela, mais conhecido como “Cine’Eco”, é uma iniciativa que a Câmara Municipal de Seia, através da sua empresa municipal e em parceria com várias entidades, tem vindo a realizar, anualmente, em meados de Outubro, desde 1995. Trata-se de um certame que se tem afirmado no panorama nacional e internacional, sendo considerado dos melhores festivais europeus de cinema de ambiente, dada a qualidade dos filmes a concurso, que habitualmente são enviados de todos os cantos do mundo. O Festival, que decorre na Casa Municipal da Cultura, tem uma componente competitiva mas contempla, igualmente, vários ciclos de cinema, além de um conjunto de outras iniciativas paralelas, como sejam exposições, concertos e palestras.
A presença em Seia durante os 10 dias em que decorre o festival de realizadores, actores e outras figuras do mundo do espectáculo, costuma ser também um factor positivo para uma cidade situada no interior do país.
No intuito de alargar a iniciativa a outros locais foram criadas várias extensões daquele festival, uma delas em Albufeira, com o apoio do INATEL. Foi assim que durante quatro dias, decorreu, na Sala Vasco da Gama, do Centro de Férias do INATEL em Albufeira, um ciclo de cinema dedicado ao Ambiente. Em Albufeira foram visionados 20 filmes, escolhidos entre cerca de seis dezenas os quais foram apuradas para o Cine’Eco 2006.
Salienta-se que este Festival tem, cada vez mais adeptos, tendo sido recepcionados, para a edição de 2006, mais de 400 filmes. António Colaço, delegado regional do Inatel nos distritos de Beja e Faro, justificou a iniciativa dizendo: «o ordenamento do território e os problemas ambientais são pontos importantes para o desenvolvimento do Algarve. Consideramos que trazer preocupações ambientais que se fazem sentir noutros países, é um elemento importante para que os algarvios tenham uma maior noção dos problemas ambientais à escala global. Vamos também fazer um esforço para levar estas projecções ao interior do concelho», concluiu. Lauro António, director técnico do Cine’Eco, reiterou a motivação veiculada por António Colaço e explicou que «este ano, a ideia foi criar extensões em vários pontos do país». Quanto às temáticas
apresentadas, é importante referir que todas elas gravitam em torno da água, principalmente nos países africanos; da ocupação do território; da poluição e da relação entre o homem e o meio. Saliente-se ainda que este festival recebe curtas, médias e longas-metragens, de animação, ficção e documentários, havendo ainda espaço para os clássicos e grandes produções cinematográficas. De entre os 60 filmes apurados para a edição de este ano, o júri atribuiu dois grandes prémios: o Prémio Especial de Lusofonía, ao filme “Ainda Há Pastores?” de Jorge Pelicano, (Portugal, 2006); considerado a melhor obra a concurso, produzida e realizada em país lusófono; e o Grande Prémio – Câmara Municipal de Seia, ao filme “ O Ataque do Tigre” (Conflict Tiger) do realizador Sasha Snow (Rússia, 2005), atribuído à obra que é considerada a melhor entre todas as presentes a concurso, em qualquer categoria de temática ambiental.

“Ainda Há Pastores?”
Jorge Pelicano Nasceu em 1977 na Figueira da Foz. É licenciado em Comunicação e Relações Públicas e, actualmente, frequenta o 2º ano de Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É repórter de imagem freelancer para a SIC televisão, desde 2001. “Ainda há Pastores” é o seu primeiro filme documentário a concurso, o qual tem uma duração de 80 minutos. Sinopse: “Há lugares que quase não existem, como Casais de Folgosinho, que nem sequer é um lugar. Não há luz eléctrica, não corre água canalizada, não há estradas. Perde-se no silêncio de um vale entre as montanhas da Serra da Estrela. Em tempos foi um autêntico santuário de pastores. Hoje os velhos morrem, e os novos fogem da dura sina de ser pastor. 365 dias por ano. Hermínio, 28 anos, contraria o fim. Dizem que é o pastor mais novo, mas também o mais doido. O futuro de Hermínio é inquietante. Até quando o jovem Hermínio será pastor? Mas...ainda há pastores?”
“O Ataque do Tigre”
Sasha Snow é fotógrafo de arquitectura antes de surgir como montador na BBC, em 1991. Em 1997 ganha o BAFTA/Post Office Scholarship para Melhor Filme de Estudante, com “Peace Under A Power Station”, enquanto estuda realização documental The National Film & Television School. Em 2002 diploma-se com o seu primeiro filme rodado na Rússia, “A St. Petersburg Symphony”. Seguem-se ‘Arctic Crime & Punishment’ e ‘Conflict Tiger’, este último, a concurso no Cine’Eco 2006 tem uma duração de 61 minutos. Sinopse: “Nas florestas do Leste Russo, um caçador inexperiente e insensato provoca uma infame série de ataques de tigres nas pessoas do vilarejo. As autoridades locais convocam os serviços de Yuri Trush, um especialista em seguir e eliminar os tigres que perderam o seu medo do homem. “Conflict Tiger” mostra a mais notável perseguição de Yuri a um tigre comedor de gente como base de um documentário de suspense…”
In “Notícias de Albufeira”, 15 de Dezembro de 2006


12/12/2006

MINISCENTE
Segunda-feira, Dezembro 11, 2006
Entrevista concedida a Luis Carmelo, do Blogue Miniscente.

Mini-entrevistas/Série II – 77

O
Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Lauro António que, para além de blogger ("Lauro António Apresenta", “Lauro Corado, Meu Pai”, “LA_Arquivo”, “Vá.Vá.diando”. “Só Nós Dois é que sabemos… a Password”, “Atlântico”, “Cine Eco”, “Famafest”), é também realizador, crítico, escritor, professor universitário e director de festivais.

- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A blogosfera, nesta altura, diz-me muito. Foi uma descoberta que considero de enorme importância. Falo a uma nível pessoal, mas também num plano colectivo. Os blogues vêm ocupar um lugar essencial na comunicação contemporânea. Numa altura em que a comunicação de massas tende à abstracção, ao impessoal, ao corte com a notícia pessoal, com o dado individual (que não tenha a ver com vedetas e falsas vedetas), o blogue vem ocupar esse espaço de comunhão de emoções, de convívio diário, de pequena anotação, de edição de textos sem “edição”, de paginação “pessoal”, de responsabilização, de assunção de uma identidade e de partilha. Os blogues re-descobrem alguns géneros literários caídos em desuso, ou mal afamados, e que regressam revitalizados, desde o diário às memórias, do registo de máximas aos “cadáveres exquis”, da literatura de viagens ao romance erótico, do picaresco ao “cordel”.
O pior da blogosfera é o anonimato traiçoeiro, incompetente, mesquinho, merdoso. Compreendo o anonimato de quem procura o diário intimista, de quem tenta criar aqui o divã de psiquiatra que não tem coragem de assumir, ou não quer assumir, no gabinete do médico. Mas quem se serve do anonimato para a calúnia e a maledicência, não tem desculpa. E tão culpado é quem calúnia como quem aceita a prática da calúnia sem a denunciar. Nisso, a blogosfera assemelha-se muito a uma “casa de meninas de mau porte”.
Mas globalmente a blogosfera é uma conquista admirável, que já mexe, mas vai mexer ainda mais, com todo o sistema de comunicação e informação. Os jornais vão sofrer com os blogues, ainda que de uma maneira inesperada. Os blogues não vêm substituir os jornais. Apenas os vêm por em cheque. Obrigá-los a mudar e muito, se querem sobreviver.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum. Para informação rápida e imediata, a TV e a Rádio são imbatíveis. Para informação mais reflectida, os jornais continuam a ter a minha preferência. Os blogues são importantes para se ter uma ideia do pulsar do consciente colectivo, mas sobretudo para se ter um outro tipo de conhecimento, que para mim é essencial. Para saber o que A ou B pensa, para conhecer e sentir o mais profundo e secreto do ser humano que aqui aflora sem grandes controlos do politicamente correcto, do socialmente aceitável, do moralmente conveniente. Aqui pode ser-se “Maria” ou “Manel” e ter-se outras vidas, aquelas que sonhamos e não soubemos construir. Aqui o anonimato não fere, apenas ajuda a despoletar a “verdade” mais íntima.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Julgo que foi mesmo essa possibilidade de falar a escrever e ouvir a ler pessoas que não conhecia e passei a conhecer, algumas apaixonantes, outras detestáveis, todas elas humanas, frágeis na sua aparente força, por vezes enormes na sua simplicidade. Este é obviamente um jogo de escrever bem, mas sobretudo um jogo de escrever “verdade”. Aqui surpreende-se uma verdade que não vem em nenhum jornal, em nenhuma televisão. Uma verdade que ou não tem interesse para a tradicional comunicação social, ou se tem interesse é logo distorcida por interesses comerciais que transformam a “verdade mais íntima” em mercadoria de transaccionar. Logo, subvertem a “verdade”.
Eu adoro escrever. Na blogosfera encontrei um terreno ideal. Sou avesso a todo o tipo de controlo, “o controlo sou eu”. Depois acho muito saudável a colectivização de bens de consumo, esta discreta pirataria que por aqui campeia, eu roubo aquela imagem, tu citas este texto, faço a minha montagem, edito e ponho no ar. Mas detesto, como já disse, a pirataria da ignomínia sem rosto, anónima, cobarde. Essa prática vai acabar com a saudável blogosfera que hoje em dia conhecemos e de que usufruímos.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que sim, mas isso comporta riscos e perigos. Ou somos responsavelmente livres, ou, mais cedo ou mais tarde, seremos irresponsáveis controlados por um qualquer “big brother”. Neste, como em todos os países, há milhares de idiotas que julgam ter graça, quando afinal Luís Pacheco só há um. O Luís Pacheco tem uma cultura impar e um talento dos diabos que lhe permitem criticar como critica. Os Pachecozinhos sem cultura nem tento na testa deviam abster-se de ser malcriados e de fazer figura de tontos. Versejadores de meia tigela, que todos lêem como um acto de contrição, que se obrigam a engolir a gargalhada para não parecerem ingratos, não se podem dar ao luxo de arrotar postas de pescada, mesmo sob um anonimato, sobretudo sob anonimato. As invejas e os ciúmes dos medíocres não podem exercer-se na vingança da arruaça sem rosto, da denúncia sem provas, da má criação gratuita.
Eu sou um privilegiado, apenas apanhei até agora um desses piratas bloguistas, e dos mais mal cotados na “blo”, sem cotação junto de ninguém, que o atura como palhaço de serviço, mas sei de muitos casos desagradáveis, e já me tentarem envenenar contra segundos de forma ignóbil. A “blogosfera é como na vida” dizem por aí e é verdade. É preciso estar preparado para tudo. Até para a completa liberdade que hoje se respira. Que era muito bom que continuasse, se todos nos soubéssemos respeitar na diferença, sem atropelos. Se não, mais cedo ou mais tarde, aparece uma legislação férrea para pôr na ordem quem prevaricou e quem não o fez.

Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati) e Rogério Santos. Agenda desta semana (de segunda-feira, dia 11/12, ao sábado, dia 16/12):
Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima e Pedro Fonseca.

12/10/2006


A PARTILHA Dezembro 2006
Entrevista concedida a Luís Silva, do jornal "A PARTILHA"

ENTREVISTA COM… LAURO ANTÓNIO
Como vem sendo hábito ao longo das edições do Jornal, e, após entrevistas a várias figuras públicas de âmbito nacional e internacional, “A Partilha”, nesta edição, tem a honra de publicar mais uma grande entrevista, desta vez com o cineasta português, Lauro António. Enquanto Director Técnico do CineEco, acedeu dar-nos uma ENTREVISTA EXCLUSIVA em jeito de balanço sobre a 12.ª edição do Festival deste ano que terminou há poucos dias, bem como, levanta um pouco o véu do que gostaria que fosse o CineEco em edições futuras.
Lauro António, cineasta português, nasceu em
Lisboa, no dia 18 de Agosto de 1942.
Licenciado em História, foi membro do Cine-clube Universitário de Lisboa e, mais tarde, director do ABC Cine-Clube, actividades que o levam à crítica cinematográfica a partir de 1963 e, mais tarde, à coordenação da programação de algumas salas e festivais de cinema. Como sucede(u) com outros cineastas da sua geração, particularmente activos após a Revolução de
25 de Abril de 1974, uma forte componente do seu trabalho destinou-se à televisão. Lauro António tem prosseguido a sua actividade como ensaísta e documentarista, tendo-se, porém, nos últimos anos mantido afastado do cinema. Manhã Submersa estreada no Festival de Cannes de 1980 permanece como a obra maior do realizador. No princípio do anos 90 do século XX esteve associado com a rede de televisão portuguesa TVI para a qual foi programador de cinema e na qual teve um horário especial em que apresentava filmes da sua escolha, chamado Lauro António apresenta, que, actualmente veio dar origem ao titulo do seu blog na internet que pode ser visitado em http://lauroantonioapresenta.blogspot.com

LS - Onde e em que ano surgiu o convite para ser Director Técnico do CineEco?
LA - Foi em fins de 1994, inícios de 1995. Recebi um telefonema de uma agência de publicidade que estava a tratar do lançamento do Festival. Eles não sabiam nada de cinema, mas perguntavam-me se podiam dar o meu nome para dirigir o Festival. Disse que sim, e que logo se veria o que poderia dar. Fui a Seia falar com uma comissão magnífica, composta por pessoas que me fascinaram logo, e de quem, desde essa altura, sou amigo. O Presidente da Câmara, Eduardo Brito, o Carlos Teófilo, o Nuno Santos, a Angelina Barbosa, o Mário Jorge Branquinho…

LS - Quem é que o abordou na altura para o efeito?
LA - Quem me abordou, como elemento da Agência de Publicidade que tratava do lançamento do Festival, foi a Paula Bobone, que me conhecia dos tempos da faculdade, onde fôramos colegas. Ela sabia que eu dirigira outros festivais e tinha plena confiança em mim.

LS - O que representa para si ser Director Técnico num festival como oCineEco, inserido num meio do interior do País?
LA - Uma aposta na dificuldade. Um desafio. Eu gosto de desafios difíceis e gosto do interior de Portugal, acho que está mal servido culturalmente e faço tudo para melhorar na medida das minhas possibilidades. Esta é uma delas.
LS - Ao longo das edições do CineEco houve algum ano em especial, que tivesse mais significado para si? Porquê?
LA - Cada ano é uma novidade, um desafio, cada ano fico mais ligado a este festival. Globalmente, foi um ano fortíssimo na competição, um ano de confirmação plena, um ano de um ambiente humano magnífico.

LS - Como é que é feita a selecção do júri?
LA - Ao longo do ano vou analisando possibilidades e depois vejo quais as disponibilidades de cada um. Um Júri tem de ser diversificado, competente, que dê bom viver entre si, que imponha respeito aos concorrentes e ao público. Credível, honesto, isento. Assim tem sido.
LS - Existem critérios para a votação dos filmes? Quais?
LA - Critérios de votação é com cada Júri, cada Presidente. Eles definem, em total liberdade, como irão funcionar. À direcção do Festival interessa apenas que vejam os filmes e sejam honestos e isentos e que no final do festival nos ofertem uma acta de Júri. Assim tem sido.
LS - Este ano a conhecida Lili Caneças foi alvo de críticas por fazerparte do júri, nomeadamente porque diziam que não tem conhecimentostécnicos sobre esta matéria. Concorda com esta opinião, ou não, eporque é que convidou a Lili Caneças?
LA - Um falso problema. Um Júri é constituído por pessoas de áreas diferenciadas, de sensibilidades diversas. A Lili é uma sensibilidade que tem muito a ver com o que o público sente. De resto, o facto dela vir ao festival só foi positivo, tornou-o mais visível, e ela, que tem voz e é ouvida por tantos, ficou mais sensibilizada para os problemas do ambiente e para os poder abordar em futuras actividades públicas. Além disso, é uma mulher magnífica, de quem sou amigo.
LS - Houve mais interesse este ano por parte da imprensa nacional eregional em relação ao festival?
LA - Há um crescente interesse por este festival, tanto a nível nacional, como internacional. Devo dizer que é evidente que este Festival é um dos melhores e mais conceituados festivais de ambiente europeus. LS - Este modelo actual é para manter, ou tem em vista aplicar novasmetodologias de gestão do festival?LA - O problema é consolidar a metodologia, não modificá-la. Fomos, e temos sido, pioneiros, temos dado ajuda a outros festivais (no Brasil, em Cabo Verde…), o importante é ter melhores condições para transformar este festival num festival mais conhecido. Apenas isso. E falo em termos portugueses.
LS - O apoio financeiro dado pela autarquia foi o suficiente ou énecessário mais investimento e porquê?

LA - Tem sido o possível, não o necessário. Maior investimento sobretudo para publicitar o festival, para o tornar mais conhecido mais mediatizado. Convidar meios de comunicação social e realizadores a estarem presentes. Somente isso, o resto está não, diremos, perfeito, mas no bom caminho.
LS - Quando se faz um festival de cinema desta categoria como é oCineEco, alcança-se algum retorno financeiro, ou não é esse um dosobjectivos?
LA - Não é esse o objectivo. Não se trata de ter retorno financeiro, mas retornos culturais, artísticos, cinematográficos, ambientais, turísticos.
LS - Este ano o grande vencedor do CineEco foi o filme "O ataque dotigre" do realizador russo Sasha Snow. Porquê este filme?
LA - Essa é uma pergunta para o Júri. Para mim, o grande vencedor seria “Carpatia”. Mas “O Ataque do Tigre” é um grande filme, premiado em diversos festivais. È também uma óptima escolha.
LS - Outro dos filmes vencedores, o que ganhou o prémio Lusofonia, foio "Ainda há pastores". Faço-lhe a mesma questão: Porquê esta nomeação?
LA - Foi unanimemente considerado o melhor filme em língua portuguesa, era uma revelação, e acabara de ser excluído do Doc Lisboa, onde não fora sequer seleccionado. Acho que foi uma boa

escolha do Júri.
LS - O que ambiciona para as futuras edições do festival?
LA - Mais e melhor. Sempre.

CURTAS E RÁPIDAS
1 - Qual o filme que mais admirou até hoje?
- Citizen Kane, mas há tantos….

2 - Qual o seu realizador preferido?
- Orson Welles, mas há tantos….

3 - Qual o seu actor ou actriz preferida?
- Mas há tantos…. Não lhe posso dizer um ou uma. Sou um infiel….

4 - Qual o filme que classifica com a banda sonora mais bonita?
- “Serenata à Chuva”? Mas há tantos….

4 - Como classifica o cinema que se faz em Portugal? Mau, razoável,
nem bom nem mau, bom, muito bom?
- Diversificado, por vezes muito bom, outras vezes muito mau. Como em tudo na vida.

5 - Uma vez que o filme "Coisa Ruim" foi filmado no concelho de Seia, pode-nos dar a sua opinião sobre o mesmo?
- Ainda não vi, mas já comprei o DVD.

12/15/2004

DIÁRIO DO MINHO (15.12.2004)

Cultura

Lauro António — impressões de um Festival nascente

A abertura oficial do festival de cinema Independente da cidade de Braga — 26 de Novembro — coincidiu com a homenagem ao realizador Lauro António, uma referência da cinematografia nacional.

Numa breve conversa com o Doutor Lauro António quisemos ouvi-lo sobre a importância do festival de Braga, dando-nos a entender que iniciativas como esta ajudam a dinamizar e criar interesses pelo cinema e pela cultura: “o facto de vocês estarem a realizar um trabalho sobre o festival já é uma forma de o festival actuar sobre os interesses dos estudantes e levá-los a pensar e interessar-se por iniciativas destas”.

Fomentar no público em geral interesses tanto a nível cultural como cinematográfico parece seu grande critério de apreciação.

Mas é sobretudo a ponte com os jovens que merece a atenção deste nome do cinema português; até porque Braga é actualmente uma cidade que possuí uma vasta população estudantil que deve ser atraída para as questões culturais e para a fruição do cinema. Como afirma Lauro António, “seria importante que houvesse em Braga um festival com força, com dinamismo, e é também muito bom que sejam os jovens a iniciar estas coisas”.

Lauro António explicou-nos, também, que é muito gratificante observar os jovens que ele apoiou, como é o caso de Artur Barros Moreira — o organizador do festival; jovens que estão a criar coisas novas, continuando um trabalho de dinamização ao qual ele próprio se entregou: “um dos melhores incentivos que podemos ter é o facto de vermos que o nosso trabalho continua a ser feito pelas mãos de outras pessoas”.

Em relação à estrutura temática do festival, Lauro António mostrou o seu desagrado por este não ter sido cingido, exclusivamente, ao cinema independente, uma vez que alguns filmes se encontravam na linha do comercial, de Hollywood.

Referiu-nos a existência de realizadores mais independentes e outros mais ligados à indústria cultural; ora, é o cinema independente, aquele que se faz fora das grandes estruturas industriais e comerciais que deve ser apoiado; até porque o outro tem as receitas dos milhões de espectadores que o frequentam.

Contudo, compreende que, no que se refere à captação das pessoas, os filmes mais conhecidos têm um papel determinante, pois ajudam a criar o hábito de ir mais vezes ao cinema. “Se for um festival de cinema independente terá que ser mais rigorosa a selecção dos filmes”.

Lauro António saúda um festival que está apenas no seu segundo ano, augura-lhe futuro, mas recomenda muita paciência; afirma que um “festival deste tipo demora tempo a evoluir, na linha de tudo o que é de ordem cultural: os processos culturais são lentos, as revoluções de mentalidades e comportamentos, que são muito importantes, demoram porque é preciso haver persistência para que possa criar um público cada vez mais exigente e mais interessado no cinema.”

Embora a cultura esteja a ser um pouco esquecida, Lauro António afirma que é importante “manter acesa a chama da cultura”; felizmente há pessoas que gostam de ir por esse caminho, “apesar de ser um trabalho mais difícil e menos remunerado, mas que por outro lado dá mais satisfação, pode ser muito gratificante, ainda que os seus resultados não sejam tão visíveis de imediato; mas são mais reconfortantes e duráveis”.

Quanto ao futuro, Lauro António tem muitos projectos no horizonte, apesar de não ter tempo de os realizar a todos. Afirma que “o importante é ter vontade e necessidade interior de se fazer as coisas”.


[15/12/2004 - 11:43] [E. M. / S. V.]

12/12/2001

FORUM MEDIA (Revista da ESEV de Viseu, 2001)


Lauro António em Entrevista
Texto:Elisabete Gonçalves (4º ano do Curso de Comunicação Social), Susana Marinho (2º ano Curso de Comunicação Social); Fotos:Luís Miguel Cardoso

A Forum Media "deixou-se levar em conversas" pelo cineasta português, Lauro António. Na sua juventude, a imagem cativou o seu coração e Manhã Submersa a sua alma.

Forum Media – Como surgiu o seu interesse e o seu fascínio pela 7ª arte?
Lauro António – Não sei bem. Acho que são coisas que não se podem explicar. Mas, eu tenho algumas explicações, pois o meu pai era pintor, interessava-se muito por cinema, por outros tipos de arte plástica e tudo o que tinha a ver com a imagem. É possível que eu, desde pequeno, esteja habituado à imagem, à visão, ao enquadramento. Mas, por outro lado, há uma apetência minha para ir aos espectáculos, ao teatro, ao cinema, que gosto muito de frequentar. Em contrapartida, tenho uma irmã que se ligou mais à pintura e que não está tão ligada ao cinema, gosta de cinema, mas como espectadora. Portanto, agora que tanto se fala no genoma, acho que há qualquer coisa nos genes que levam as pessoas a irem para um lado ou a irem para outro.
Forum Media – Encontrou algumas dificuldades para que o seu trabalho fosse realizado?
Lauro António – Muitas. Sentem-se sempre e, hoje as dificuldades são um bom estímulo para as pessoas fazerem ou não fazerem certas coisas quando gostam de as fazer. As dificuldades são uma forma de comprovar as vocações, isto é, uma pessoa que não tem uma grande vocação, se calhar as dificuldades fazem-na ficar pelo meio do caminho. E quem gosta mesmo das coisas e sente paixão por elas, as dificuldades talvez sejam uma forma de incentivar, a ir mais além.
Forum Media – Que tipo de dificuldades é que encontrou?
Lauro António – Eu acho que qualquer pessoa, em qualquer carreira tem sempre dificuldades de se afirmar, de criar um lugar, de fazer aquilo que gosta, de tentar de alguma maneira ser autêntico consigo próprio. Um dos aspectos mais importantes em tudo que tenha a ver com a arte é a sinceridade consigo próprio. É sempre difícil uma pessoa ter uma posição que não seja acomodada, que procure ser independente, que procure falar de acordo com aquilo que pensa e não daquilo que seria não só politicamente correcto, como aquilo que faz subir na vida. É sempre um bocado difícil e há sempre dificuldades, ainda por cima num campo como o do cinema. Por exemplo, para se concretizar um filme não basta ter um papel e um lápis, como acontece com um escritor. Mesmo que não se publique o romance, o poema, o ensaio ou outra coisa pode ficar arquivada e mais tarde pode ser recuperado. Um filme ou se faz ou não se faz. É preciso jogar com verbas, com capitais avultados e é difícil.
Forum Media – O facto de ser crítico de cinema influenciou de alguma forma a concepção dos seus filmes?
Lauro António – Influenciou na medida em que, sendo crítico de cinema e gostando muito de cinema, vi muitos filmes. E digamos que eu não tenho um curso de cinema, tenho um curso de história e foi vendo filmes que aprendi a fazer cinema. Portanto, os filmes tiveram essa importância e a actividade de crítico também, porque me obrigou a reflectir sobre os filmes. De resto, eu não acredito que seja necessário ser-se realizador para se ser crítico, pode-se ser crítico de muita coisa que não se fez e que se sente sensibilizado para discutir. Assim como também se pode ser realizador e não ser crítico, gostar de fazer as coisas e não estar interessado em discutir aquilo que os outros fizeram, ou então estar interessado em discutir consigo próprio ou com os amigos e não fazê-lo publicamente, como crítico. No meu caso aconteceu, têm acontecido em paralelo as duas actividades, mas eu acho que de certa forma é enriquecedor, quer para um campo quer para outro.
Forum Media – Num artigo publicado na Forum Media, disse que Vergílio Ferreira era um irredutível adversário do cinema. Porquê?
Lauro António – Não sei se disse isso. Eu acho que o Vergílio Ferreira não era um irredutível adversário do cinema, tanto que aceitou que algumas obras dele passassem para o cinema. Ele tinha alguma dificuldade em expressar-se através do cinema, ou seja, o cinema e a literatura são formas de expressão completamente diferentes. E eu acho que quem se expressa por uma, tem alguma dificuldade em expressar-se por outra. São campos de narrativa completamente diferentes, ou seja, o cinema vive muito da imagem, a literatura vive das palavras, vive de uma montagem de palavras e de signos fonéticos, enquanto que o cinema vive de uma montagem de imagens e de sons. Uma coisa é mais concreta do que a outra. Ambas pedem ao espectador/leitor algo que tenha a ver com a imaginação, com a reformulação do real que é mostrado através do prisma de um escritor ou de um realizador. Mas, é o leitor que tem de o reformular, mas de forma diferente. Esse apelo que faz à imaginação, da parte do leitor é de uma forma, da parte do espectador será de outra. Efectivamente, por vezes, o Vergílio Ferreira utilizou nos seus próprios romances muita estrutura narrativa que foi buscar ao cinema, sobretudo na parte final da sua obra. Porque começou a pensar o cinema e a ver todo o tipo de referências que o cinema poderia trazer para a sua própria obra, para a sua própria criação literária.
Forum Media – Qual a razão da escolha da obra Manhã Submersa para a elaboração do filme?
Lauro António – Eu li a Manhã Submersa quando tinha 14 ou 15 anos e foi um romance que me marcou muito. Precisamente porque é uma obra que pega num caso concreto: um seminarista que está no seminário, que não tem vocação e que se sente preso. Partindo desse contexto, de certa forma individual passa para um caso geral, passa para uma descrição do país, para uma análise de uma sociedade concentracionária, uma sociedade que vive dominada por determinados poderes civis, militares e religiosos e que têm a ver um pouco com Portugal do Estado Novo. É esse clima que o romance define e isso interessou-me bastante naquela altura. Foi seis anos depois da revolução, numa altura em que já se estava a passar o tempo daquela euforia revolucionária, em que se estava a tentar já a pensar outra vez na identidade nacional, o que é que éramos como país, o que é que atravessámos e digamos que um filme daqueles parecia-me importante naquela época.

Forum Media – Como funciona a criatividade do espectador no cinema em comparação com a literatura?
Lauro António – Um leitor quando lê num romance "uma mesa castanha", pode imaginar várias mesas castanhas e imaginar as mesas em função da sua própria experiência pessoal. Quando um romance fala de uma mesa castanha, se calhar o leitor A lembra-se da mesa castanha que tem lá em casa, o leitor B da mesa que viu na escola, o leitor C de uma mesa que viu na sacristia e cada um faz apelo à sua própria experiência. No cinema, vê a mesa. O tipo de imaginação é outro, o tipo de formulação é diferente. O cinema é mais concreto, ou seja, há uma presença física, não há uma substituição por símbolos, vê-se objectivamente o objecto que se refere. Há, no entanto, outro tipo de imaginação que tem a ver com a montagem, com a ligação entre planos, que remete para aquilo que nas figuras de estilo pode ser considerado, por exemplo, uma elipse ou outro tipo de figuras de estilo e que são utilizadas no cinema com alguma frequência, como a distância no tempo, mas a elipse é a base do cinema. Nessas elipses, o espectador é obrigado a preencher esse tempo, que não vê. Faz-se um percurso, esse percurso tem que ser imaginado pelo espectador. A ligação entre os dois planos põe a funcionar esse tipo de imaginação, de jogo criativo por parte do espectador. O espectador de cinema quando vê um tipo que acorda às 8h da manhã e no plano seguinte está na escola cheio de sono, imagina que ele levantou-se, tomou o pequeno-almoço, com leite, café, croquete, croissant. Outro pensa, levantou-se, foi a correr tomar banho, não tomou o pequeno-almoço e chegou à escola. Tudo tem a ver com a experiência do espectador, não há duas leituras idênticas.
Forum Media – Porque é que afirma que Prefácio a Vergílio Ferreira é também como um prefácio para a sua estreia em longa metragem de ficção?
Lauro António – Até aí tinha feito uma curta metragem. A minha segunda curta metragem foi mais documental, mas um tipo de documentarismo que apontava para a ficção. Era uma abordagem de um universo ficcional do Vergílio Ferreira, ou seja, esse filme é uma espécie de prefácio, uma espécie de congregar temas, sessões, situações da obra de Vergílio Ferreira e que foi uma maneira de eu próprio ter uma experiência no campo da ficção, introduzir-me de certa forma no campo da ficção.
Forum Media – Para além de Vergílio Ferreira, houve outros autores que lhe despertaram o interesse para a adaptação cinematográfica das suas obras?
Lauro António – Muitos. Estou muito ligado à literatura, um dos meus interesses maiores é a literatura, gosto de ler, não gosto tanto de escrever, mas gosto muito de ler. O filme seguinte que fiz foi retirado de um texto literário de José Régio, Vestido Cor de Fogo. Numa série para a televisão, em que também estiveram ligados Maria Judite de Carvalho, Carlos Pires, um conto popular português, que era a Bela e a Rosa e, nesta altura lembro-me que há um outro conto que eu adaptei também, foi novamente o Vergílio Ferreira, Mãe Genoveva. E, entretanto, já tive mais outras tentativas de aproximação, por exemplo, ainda comecei a fazer uma adaptação da Costa dos Murmúrios da Lídia Jorge, estou muito interessado num romance da Teolinda Jarsão, que também tem um romance de que eu gosto e que estou a pensar fazer uma adaptação. Tem havido também de certa forma alguns guiões originais, ideias minhas que até agora ainda não foram para a frente, mas de um momento para o outro podem ir.
Forum Media – No mesmo artigo editado na Forum Media afirma que ser-se fiel a uma obra, é sobretudo ser-se fiel à leitura que dessa obra se fez. Em grande parte é ser-se fiel a si próprio. Poderia aprofundar mais um pouco esta ideia?
Lauro António – Todas as pessoas fazem leituras diferentes das obras. Aliás, quer se queira quer não se queira faz-se sempre, porque todas as pessoas ao lerem um romance têm uma leitura, que é uma leitura pessoal. E essa leitura pessoal acaba por ser um reflexo da personalidade de quem leu.
Acho que isso é que é o mais interessante. Depois o que acaba por ser também interessante é que essa leitura que foi feita pode ser tão rica ou não como a do romance, quer dizer, como quem escreveu o romance. Acho que uma adaptação tem de não ser infiel, mas não trair aquilo que se adapta, nem aquele que adapta. Por isso, só se pode escolher para a adaptação alguma coisa que seja adaptável, ou seja, alguma coisa que tenha a ver connosco. Por exemplo, eu ao adaptar a Manhã Submersa fui escolher um romance que me dizia muito, que era um romance que se eu tivesse o talento para o escrever, eu o teria escrito e, portanto, como não o escrevi, digamos que o fiz, fazendo a realização do filme.
Forum Media – Acha que a literariedade dos livros é deturpada ou diminuída quando a sua narrativa é adaptada ao cinema?
Lauro António – Não, e para não ser deturpada tem de se jogar em registos completamente diferentes. Ou seja, se nós formos fazer uma ilustração de um romance, aí estamos a deturpar o romance, porque não estamos a fazer nem romance, nem o cinema. Falando de cinema, as coisas têm de ser encaradas de um ponto de vista novo, diferente, de uma estrutura narrativa completamente diferente. É um pouco o que se faz em tradução, ou seja, há muitas pessoas que tentam traduzir literalmente uma frase. E quem traduz literalmente uma frase não a consegue traduzir, tem de procurar na outra língua a mesma ideia. É preciso recriar a mesma frase, mas que na outra língua tem uma outra construção completamente diferente. O mesmo acontece em literatura, o romance constrói-se de determinada maneira, em cinema, o filme constrói-se de uma outra maneira. Não se deve transpor de um para o outro tentando ilustrar, mas recriando tudo. Aí, sim, é-se fiel tanto ao autor, como ao segundo autor, neste caso o realizador.
Forum Media – Gostaria de contracenar nalgum filme seu? Qual a personagem que escolheria?
Lauro António – Em filmes meus eu já participei, mas com pequenas rábulas, como figurante mas uma das minhas ambições é fazer até um pequeno papel. Talvez um dia.

12/12/2000



FORUM MEDIA (revista da ESEV, curso de Comunicação Social)

(ano de 1999-2000)

Forum Media entrevistou Lauro António, o aclamado cineasta de "Manhã Submersa", que comentou, entre outros aspectos, os caminhos do cinema contemporâneo, as disputas entre o cinema americano e o cinema europeu, o seu trajecto de cineasta e a própria essência da arte cinematográfica.

Texto LUÍS MIGUEL CARDOSO
Foto JOSÉ LUÍS OLIVEIRA

"CITIZEN KANE é a imagem da genialidade"

Forum Media - Como podemos caracterizar os caminhos do cinema contemporâneo? Será que o cinema segue, por exemplo na linha de Tarantino?

Lauro António - Digamos que é uma das linhas, mas não uma linha hegemónica, ou seja, eu acho que o Tarantino vai funcionar como um fenómeno de moda, aliás, julgo que já se está a esbater um pouco o fenómeno de Tarantino, mas é óbvio que há várias tendências no cinema contemporâneo. Há várias tendências ao nível da própria indústria como os filmes de grande espectáculo destinados a grandes salas. Eu julgo que vai ser esse um dos caminhos para manter o cinema como grande espectáculo. Por outro lado, há um tipo de cinema e de filme que se destinam a abastecer o mercado televisivo e do vídeo e são filmes que têm outras características, mais intimistas, e que podem ser exibidos em salas mais pequenas, mas que são ainda filmes de grande público que se destinam às televisões. De certa forma, eu julgo que vai haver aí uma contaminação entre a linguagem de televisão e a linguagem de cinema e não se descobre onde começam os filmes e acabam os teledramáticos.
Antigamente, havia uma divisão bastante distinta. Hoje em dia, não existe tanto. Os filmes são feitos fundamentalmente, até, se calhar, para serem exibidos nas televisões. Por outro lado, há uma corrente que é muito diversificada entre si: o cinema de autor, mais experimentalista, mais vanguardista, e que é uma corrente que vai continuar a ter o seu público, porque há muitos cinéfilos que não abdicam de ir ao cinema. É evidente que, se calhar, esses filmes estão reservados para pequenos cinemas. São coisas que acontecem já em vários países e várias cidades. Existe um certo circuito que não direi que é paralelo, porque está integrado na indústria, mas um circuito que se torna particularmente conhecido e que é referenciado enquanto tal por um conjunto de cinéfilos que sabe que certas salas têm aqueles filmes que eles ainda gostam de ver e que são filmes que passam pouco nas televisões. Portanto, obrigam a que quem gosta de cinema e quem gosta daquele tipo de filmes, vá ao cinema ver aquelas fitas. De um modo geral, acho que o cinema está a viver um período de saída de uma crise, ou seja, eu acho que nesta altura o cinema está a recuperar o público, e isso é uma consequência da má qualidade da televisão.
Muita gente deixou de estar em casa a ver os programas de televisão e vai ao cinema sobretudo porque há um período chamado "Prime-Time" nas televisões, que vai entre as 8H e as 11H, que é a hora de ir ao cinema, em que, se as pessoas têm maiores exigências ao nível do entretenimento, não ficam em casa a ver aquele tipo de entretenimento, ou então, podem ficar, mas têm alternativas, os canais temáticos, porque estas televisões generalistas estão actualmente um pouco em crise. Por isso, eu julgo que o cinema está em recuperação. E recupera também em função das salas que estão a ser criadas. Portanto, acho que o cinema se está a adaptar a uma nova realidade e desde que as pessoas tenham conforto e boas qualidades técnicas, preferem ir ao cinema, ou melhor, também gostam de ir ao cinema. Não direi que as pessoas preferem ir ao cinema em vez de ficarem em casa a ver o filme, porque a maioria, se calhar, gosta de ficar em casa. Mas entre uma coisa e outra, acredito que hoje em dia há muito mais gente a ir ao cinema do que havia antes.

Forum Media - Referiu-se à indústria cinematográfica norte-americana. Será que ela não existe num nível tão avassalador que não deixa grandes espaços a produções independentes e ao cinema europeu? Será que o cinema europeu, o cinema de autor, consegue sobreviver quando o cinema norte americano é sobretudo um cinema de consumo rápido, preocupado com estratégias de marketing? Será que há espaço hoje em dia para um cinema de concorrência ?
«o cinema americano está a tornar-se hegemónico»

Lauro António - Haver há, mas o cinema americano está a tornar-se hegemónico, ou seja, está a atirar para ghetos as cinematografias e não só a nível da exibição como a nível da produção, aliás, uma coisa implica a outra, ou seja, se não há sítios onde os filmes sejam exibidos, é difícil depois haver filmes, porque os produtores começam-se a retrair na sua aposta em certo tipo de cinema. Eu sei, por exemplo, que havia festivais com certo tipo de cinema mais independente. Nós, em Portugal, tínhamos o festival da Figueira da Foz, que era um festival que vivia muito da produção independente e depois começou a atravessar uma crise gravíssima. Antigamente havia uma produção independente muito boa e uma produção quase terceiro mundista com grande interesse, América Latina, África, não falando já da Europa, Oriente. Hoje, não. Os americanos também estão, através do cinema, a impor uma massificação de costumes, usos, maneiras de pensar, maneiras de agir e isso é deliberado, ou seja, os americanos apostam no cinema como uma forma de hegemonizar o mundo através da sua maneira de ser, "The American Way of Life", precisamente através dos filmes. A melhor forma de promover as Coca-Colas, as T-Shirt’s, os Jeans, os McDonald’s é o cinema. Portanto, quando a indústria audiovisual, hoje em dia, é a primeira indústria, e é, é aquela que monopoliza mais dinheiro, melhores transações na América, isto quer dizer que os americanos apostaram deliberadamente porque sabem que essa indústria leva as outras atrás.

Forum Media - O cinema também se rege pelas leis do mercado e talvez tenha sido por isso que as televisões agora investem em termos de produções cinematográficas como é o caso da SIC, que tem apoiado vários filmes, o "Adão e Eva", a "Zona J", etc...
Será que, no fundo, o cinema está a ganhar características da televisão, ou será o processo inverso? Será que, de algum modo, o cinema está a integrar-se num meio, de modo a propiciar um conjunto de características novas, dado que o filme de televisão tem um circuito diferente do filme que é exibido numa sala de cinema?

«o cinema continua a ser uma arte que vai englobando aquilo que vai conquistando»
Lauro António - Tem um circuito e tem uma estética diferente, ou seja, o que me parece também que está a acontecer no cinema é efectivamente isso. De certa forma, existe uma produção de cinema que é feita a pensar na televisão. Por exemplo, esses filmes que referiu, o "Adão e Eva", a "Tentação", a "Zona J" , são filmes que efectivamente apostam num mercado de cinema, mas apostam num mercado de cinema, apostando já num mercado também de televisão e obviamente que são feitos a pensar numa conciliação de linguagens. É um tipo de filme que passa bem no cinema, mas depois terá que passar bem na televisão. Evidentemente que isso acaba por criar uma certa linguagem híbrida entre cinema e televisão, mas nós estamos numa época em que esse tipo de linguagem híbrida funciona praticamente a todos os níveis.
Todos os artistas estão em contacto permanente e rápido com outras formas artísticas e isso implica uma contaminação de linguagens, de estruturas narrativas. Acho que isso é um outro reflexo da aldeia global. A rapidez da informação é de tal ordem que obriga a ajustamentos muito rápidos para, ou de uma forma oportunista apanhar o comboio em andamento, mas apanhá-lo, ou então digamos, fazer assimilações íntimas praticamente sem os criadores darem conta disso, mas que têm a ver com outro tipo de linguagem. Por exemplo, o cinema está cada vez mais dependente da música ao nível também dos videoclips. A ligação entre a estrutura dos videoclips e o cinema começa a ser, por vezes, flagrante. O multimédia, a imagem virtual também ao nível do cinema começam a ter grande importância. Essa amálgama de novas tecnologias, de formas de expressão artística que eram diferentes, hoje em dia tendem para uma conciliação.

Forum Media - Portanto, no fundo, podemos considerar que o cinema, hoje em dia, é uma intersecção de planos distintos em termos culturais?

Lauro António - Eu acho que o cinema sempre foi isso. Porque o cinema sempre foi uma arte que de certa forma quando é entendido como arte, engloba um pouco de quase todas as outras e apesar de ser contra o teatro, de ser contra a estrutura teatral, porque tem de ser um outro tipo de narrativa, o teatro está presente no cinema, a pintura está presente no cinema, a literatura está presente no cinema, a música está presente no cinema e o que se sente é que o cinema continua a ser uma arte que vai englobando aquilo que vai conquistando. O multimedia hoje em dia, faz parte do cinema. Julgo que essa tendência que o cinema tem de assimilar as novas formas de expressão, as novas conquistas tecnológicas, tem a ver com a própria essência do cinema. O cinema é uma arte composita, quer dizer, toca um pouco em tudo.

Forum Media – Podemos afirmar que o cinema foi influenciado por diferentes meios de comunicação?


«há muitos filmes que são feitos milimetricamente só com a preocupação do lucro»

Lauro António - Eu acho que todas as formas de comunicação influenciaram o cinema. Quando o cinema se aproxima de qualquer tipo de comunicação, acaba por assimilar alguma coisa dessa forma de comunicação. O cinema aproximou-se obviamente, ou melhor, falando agora do audiovisual, aproximou-se obviamente do jornalismo e criou a reportagem, criou o documentário, criou os telejornais. Hoje em dia, são jornais de uma imprensa escrita aos quais se deu uma forma audiovisual .

Forum Media – Hoje em dia um filme é mais um produto das exigências dum público do que propriamente um produto dum realizador ou dum produtor?

Lauro António - Não, isso depende do tipo de produção que é feita e, desde logo, das próprias ambições do filme. Há filmes que são construídos para captar o público e que são feitos quase como uma obra de mercado publicitário, com marketing, com estudos de mercado para que o filme seja lançado e corresponda aos desejos do público e que o público seja condicionado por aquilo que o filme vai oferecer. Mas também acho que há muitos filmes que são feitos pura e simplesmente com livre inspiração de um realizador. Porém há muitos filmes que são feitos milimetricamente só com a preocupação do lucro. O Oliveira é um realizador que não se preocupa com estas questões, mas não falando só do Oliveira, desde o Alain Resnais, o Greenaway, até tantos outros realizadores que fazem uma obra profundamente pessoal e que certamente não estão a pensar no público, no sentido mais limitativo de público, de modo a facilitarem a sua escrita ou a sua forma de entender o cinema para serem, assim, de mais fácil acesso ao público. Esperam que o público vá ter com eles. Creio que todos eles pensam que estão a fazer filmes para o público, e estão, e cada um deles quererá ter o maior número de espectadores possível, mas acho que não fazem nada deliberadamente para isso.

Forum Media - Falemos agora um pouco do trajecto do Dr. Lauro António relativamente ao cinema. Cineasta, mas também crítico, conhecemos os seus trabalhos já desde a República, a Plateia, a Rabeca, o Distrito de Portalegre. Será que esta fase influenciou de alguma forma Lauro António cineasta ?

Lauro António - Digamos que você está aí a referir a fase de crítico de quase adolescente. Na Rabeca , no Distrito, na Plateia e até na República onde eu comecei a escrever , digamos que foi o meu início de actividade. Eu comecei a escrever para aí com 14 anos, na República, no Distrito de Portalegre, mas isso não são coisas quase para revelar, são histórias. Eu gostava muito de cinema, fazia umas notícias. Mas obviamente que o meu percurso de crítico começa com mais força no Diário de Lisboa, em 1967, e depois tem-se mantido com algumas interrupções. Eu gosto muito de escrever sobre filmes e portanto mantenho esse gosto. E é evidente que me terá influenciado. Eu nunca fiz um curso de cinema. O meu curso de cinema foi ver filmes, que aliás é o melhor curso que se pode ter.
Eu acho que um curso é muito importante, mas eu acho que é a todos os níveis. Não há cursos para escritores, não há cursos para poetas, não há cursos para músicos, para compositores. Existem cursos em que se oferecem conhecimentos técnicos para desenvolver, ou não, as potencialidades que existem dentro das pessoas ao nível da criatividade. Portanto, nalguns casos, até podem existir bons técnicos que não tenham necessidade de ser muito criativos, mas obviamente que nesse aspecto eu acho que a melhor forma de cultivar a sensibilidade, o gosto, é realmente vendo filmes. E depois, a criatividade de escrever sobre eles implica uma certa reflexão, não é só o facto de ver o filme e gostar ou não gostar, mas depois tentar transmitir aos outros porque é que se gostou ou não gostou. E isso acaba por ser um exercício pedagógico para nós próprios. Acho obviamente que a minha fase de crítico teve uma influência muito grande naquilo que eu possa ter feito a nível de cinema.

Forum Media - Nós notámos, de facto, essa necessidade de tentar captar o público, no sentido de o doutrinar, no bom sentido, de modo a estimular o seu interesse para o filme, para a realização, para a interpretação. Estou a pensar na T.V.I., nas apresentações que o Dr. Lauro António fez e estou a pensar também naquele momento em que após a apresentação do filme, se pedia a opinião dos telespectadores. Este diálogo entre quem apresenta o filme e quem vê essa apresentação, de algum modo estimulou-o nesta faceta televisiva de modo a manter este espaço de convivência e diálogo com os telespectadores?

Lauro António - Sim, acho que sim, acho que uma das coisas que me deu mais prazer fazer na T.V.I. foi manter esse diálogo com os espectadores, porque criou-se uma espécie de clube, não direi de fãs do Lauro António, mas de fãs do programa, que escreviam com uma certa regularidade, e mais, ia havendo um espaço alargado porque havia alguns, cerca de uma centena de espectadores, que regularmente escreviam, não digo todas as semanas, iam-se revezando, mas eu recebia 30, 40, 50 cartas por semana. Eu às tantas tinha já uma amizade com pessoas que não conhecia, mas que, lendo todas as semanas o que eles iam escrevendo, conhecendo. Cheguei a ter um projecto que era interessante, que era fazer uma revista que tivesse a ver com cinema e que estivesse mais ou menos ligada à T.V.I.. Eu iria aproveitar muitos desses comentários, sobretudo muitas das pessoas que escreviam esses comentários, porque havia muitos com muito interesse e que poderiam ser nitidamente muito bons jornalistas, comentadores e até críticos, inclusive de cinema, que poderiam ser aproveitados para essa tal revista. Depois, foi um projecto que abortou, mas foi uma actividade que me deixou boas recordações.

Forum Media - Quando nós falamos em Lauro António é evidentemente necessário recordar Manhã Submersa que em termos de adaptação foi um processo complicado. Exigiu, da parte do realizador, um estudo aturado da obra. No fundo, o filme é também a sua perspectiva, a sua visão relativamente à obra de Vergílio Ferreira?


«os filmes vão variando com a vida»

Lauro António - Sim, digamos que o Vergílio Ferreira retrata uma realidade, estrutura-a dramaticamente e eu sobre essa realidade que ele já tinha estruturado sobre o ponto de vista artístico, reelaborei um discurso, procurando abarcar a mesma realidade, mas reelaborei um discurso artístico de outra forma, com uma outra narrativa, e é evidente que é um trabalho de certa complexidade, não quer dizer que seja difícil ou não, é preciso ter-se sensibilidade para o fazer. Há quem o faça com facilidade, há quem o faça com dificuldade. O problema não está tanto no tempo que demora, na facilidade ou na dificuldade que existe, mas nas possibilidades que uns têm e outros não têm. Não sei se funcionou muito bem ou não, mas a ideia era adaptar uma estrutura narrativa.


Forum Media – Para terminarmos, uma pergunta clássica quando nós falamos de cinema: qual é o filme, ou quais são os filmes preferidos do realizador Lauro António?

Lauro António - Sabe que os filmes vão variando com a vida. Quer dizer, vão-se acrescentando. Normalmente, eu não abdico de paixões antigas, o que vou é acrescentando outras. Eu julgo que o filme de que eu gosto mais é o Citizen Kane do Orson Welles, mas ao lado desse, eu posso dizer que tenho uma Serenata à Chuva, tenho tantos filmes como o Casablanca, E Tudo o Vento Levou, que acho fabulosos. Há os irmãos Marx, há o Chaplin, há o Buster Keaton, há tantos... todos filmes que são assim momentos de perfeito prazer, de deleite. É muito difícil dizer assim, qual é o filme. Eu normalmente opto pelo Citizen Kane porque é um momento de genialidade mais ou menos consagrado. Por exemplo, eu dou aulas e é um filme que eu todos os anos passo aí duas ou três vezes aos alunos e que me dá um prazer louco estar a ver sempre. Às vezes, até vejo eu sozinho quando passa pela televisão, ou quando se estreia uma cópia nova. E é um filme que tem sempre coisas novas para a gente descobrir. Eu já o devo ter visto centenas de vezes. O Citizen Kane vi-o quando eu era miúdo, miúdo quer dizer, tinha para aí 20 e poucos anos e já tinha visto o Citizen Kane cerca de 20 vezes. E é evidente que depois disso, já se passaram muitos anos e eu vejo o Citizen Kane quase duas ou três vezes por ano, no mínimo, e a verdade é que há coisas que eu já vi e continuam a fascinar-me, e há coisas que eu ainda não vi. Ou seja, eu acho que é um filme que é inesgotável e é a imagem da genialidade de um tipo com 25 anos que não sabia nada de cinema e faz um filme daqueles... É realmente um homem que é predestinado, é um génio. Acho que talvez seja aquele filme que eu possa citar como exemplo.